Correio Braziliense ...INFRA-ESTRUTURA
INFRA-ESTRUTURA Portos brasileiros enfrentam o desafio da modernização, dois séculos depois de abertos 24/25 • Brasília, domingo, 27 de janeiro de 2008 • CORREIOBRAZILIENSE - ECONOMIA
CRITÉRIOS POLÍTICOS A infra-estrutura portuária estava meio escanteada: qualidade do cais, melhoria de acessos terrestre, ferroviário e marítimo, via dragagem. É nosso principal problema. A Secretaria de Portos foi criada há seis meses. E não foi à toa, mas, sim, com a constatação da necessidade de melhorar, com rapidez, os portos. Foram estabelecidas prioridades. E a primeira delas foi a modernização da gestão das sete companhias Docas. O maior problema nas companhias Docas era o preenchimento dos cargos com critérios basicamente políticos, o que vem desde a época de Getúlio Vargas. Isso não tem como ser negado. Decidimos profissionalizar as companhias, o que é básico para qualquer projeto que se vá iniciar. A gente tem que ter interface técnica na gestão. O usuário tem que conversar tecnicamente com a autoridade portuária. Essa mudança de postura foi difícil. Mas conseguimos. CARTEL NA DRAGAGEM O segundo ponto de estrangulamento é a questão das dragagens, que ainda são feitas por poucas empresas nacionais. Percebem- se cartéis entre elas. Mas, agora, com os recursos no PAC, decidimos abrir o mercado. Já não era mais questão de dinheiro, mas de buscar eficiência, menor preço. E abrimos o mercado para as empresas estrangeiras. Outro fato marcante. Já estamos elaborando os primeiros editais. Estamos sendo procurados por várias companhias para entender o processo. E é claro que elas vão se associar às nacionais. Acreditamos firmemente na disputa, sobretudo porque a lei nos permitiu leilões em bloco, para aumentar o tamanho do negócio. Cada bloco terá mais de um porto por bloco. E os preços das obras vão cair. DOCAS ENDIVIDADAS Nossa meta é atingir padrão europeu, de cerca de US$ 200 por contêiner. Temos R$ 2,7 bilhões no PAC para quatro anos, para os 40 portos públicos. Acreditamos que esse dinheiro permitirá um bom avanço, sobretudo no acesso aos portos. O endividamento dessas companhias é um problema sério, embora esteja estancando neste momento. As dívidas chegam a R$ 2 bilhões. Das sete Docas, duas dão lucro, Pará e Ceará. O resto dá prejuízo. Isso atrapalha demais os investimentos. E há uma questão mais graves: não dispormos de todos os dados referentes aos passivos trabalhistas ajuizados, transitados em julgado. É um débito tão grande, que não temos controle. Por isso a gestão é tão importante. O foco é na eficiência. Quando não se dá atenção, cria-se a confusão que está aí. Não é só controle a posteriori. É fazer levantamentos, equacionar, levantar fundos, incluir o BNDES nessa negociação. Também é preciso fazer um marco regulatório. Garantir em lei que os diretores dessas empresas têm de seguir um perfil definido em lei. Isso já será um atenuante. SEM PRIVATIZAÇÃO Nosso modelo já é um dos mais privatizados do mundo. Tem país que não aceita o conceito de porto privativo, como nós. A lei de 1993 trouxe um nível de privatização que eu diria que, em comparação com o mundo, estamos bem na frente. Todos os grandes portos, como o da Antuérpia, de Hamburgo e de Barcelona, têm o nosso modelo: a autoridade portuária é pública, funcionando como autoridade e gestora de condomínios de áreas privadas. Mas como são portos com gestão mais eficaz, são auto- suficientes. Mas são públicos, geram a sua receita, reinvestem os lucros. Os melhores portos da Europa estão dentro do nosso conceito.
| AUTONOMIA ECONÔMICA Do ponto de vista econômico, o evento de 28 de janeiro de 1808 representou a emancipação do país. Até então, todos os produtos eram exportados diretamente para Portugal e de lá redistribuídos com ganhos alfandegários, comerciais e econômicos para a Coroa e empresários portugueses. A partir de 28 de janeiro de 1808, quando se decretou a abertura dos portos, também se decretou a autonomia econômica do país. E certamente, dentro de um contexto mais amplo, político, econômico e histórico, foi o início do processo de independência do Brasil, que aconteceu 13 anos depois. Do ponto de vista de política internacional, a abertura dos portos brasileiros era inexorável. Ela tinha que acontecer, porque não se poderia ter um Brasil como cabeça do império sem negociar, sem trazer coisas para o país, sem poder exportar diretamente. O MAIOR Em cinco anos (após a abertura), o Porto do Rio já era o maior da América Latina. As exportações representavam 10 vezes mais do que as que se praticavam antes da chega da família real. Salvador negociava, mas não era tão significativo como o Rio, que além do açúcar, exportava ouro e diamante. Na importação, tinha os escravos. O Brasil importava dois grupos: manufaturados e escravos (mão-de-obra). No primeiro ano de abertura dos portos, foram abertas no Rio de Janeiro 100 empresas estrangeiras, sendo mais de 90% totalmente inglesas e algumas francesas. Até a chegada da família real era proibido ter indústria no Brasil. SOMENTE UM PONTO Os portos eram locais de atracação, com um pouquinho de melhora aqui, um puxadinho ali. Eram trapiches, ancoradouros muito simples. Não havia um conceito técnico. Pegava-se uma baía, com calado bom, e o porto era um local de recepção de cargas. A administração portuária era um local de alfândega, de arrecadação, que tinha de facilitar a chegada e a saída de mercadorias. Era somente um ponto. Ainda assim, Portugal tinha um conceito bastante avançado sobre arrecadação. As alfândegas foram montadas ali. Havia o conceito de selar mercadoria empacotada, embalada, de pesá-las na hora do embarque. Mas os portos só passaram a ser vistos como agentes de desenvolvimento econômico no Estado Novo. Com Getúlio Vargas, os portos passaram a ser entendidos como agentes de desenvolvimento e foram encampados, estatizados, pelo governo. BUROCRÁTICA Por tudo o que se lê, herdamos muito da burocracia lusitana. E não foi somente nos portos. Todo o nosso arcabouço burocrático, bastante complexo, vem de Portugal. Herdamos essa cultura. Não acredito que tenha piorado. Acho até que houve melhorias. O que acontece é que temos de melhorar os diversos escaninhos públicos que estão nos portos. Você tem a Secretaria da Receita, na parte aduaneira. Tem o ministério da Agricultura, para controlar produtos perecíveis. Tem a Anvisa, para problemas de saúde, além da Marinha e das autoridades portuárias. São vários entes federais que atuam nos portos. O que pretendemos é integrar as repartições para que possamos chegar em um ponto em que o usuário do porto veja o governo federal, não diversos guichês. A Receita Federal tem trabalhado nisso, há uma boa vontade de todos os órgãos. Todos entendem |


CRITÉRIOS POLÍTICOS